Política, pessimismo e populismo

Barnard College, Columbia University, Nova Iorque

1. O avanço do populismo de direita é, provavelmente, o problema mais crítico que a Europa enfrenta hoje. Muitos analistas, incluindo eu, relacionaram a ascensão do populismo com o declínio da social-democracia, ou centro-esquerda. Muitos dos eleitores social-democratas tradicionais votam agora populista; o abraço da social-democracia a um neoliberalismo mais “amigo e gentil” abriu o “espaço” político que os populistas ocuparam com um chauvinismo social; e o enfraquecimento eleitoral da social-democracia inviabilizou a formação de governos de maioria de esquerda e, em muitos países europeus, qualquer maioria estável de governo, tornando mais difícil a resolução de problemas, aumentando a insatisfação com a democracia e o apoio ao populismo.

Porém, para além destas conexões há algo ainda mais fundamental: a perda da perceção da possibilidade de mudança que a social-democracia injetara na democracia liberal do pós-guerra.

A social-democracia foi a ideologia mais otimista e idealista da era moderna. Em contraste com os liberais, que acreditavam que a “lei das massas” conduziria ao fim da propriedade privada, à tirania da maioria e a outros horrores, e por isso defenderam a limitação da política democrática, bem como com os comunistas, que argumentavam que um mundo melhor apenas poderia surgir da destruição do capitalismo e da democracia “burguesa”, os social-democratas insistiram no imenso poder transformador e progressivo da democracia: esta permitiria maximizar as vantagens do capitalismo, minimizar as suas desvantagens e gerar sociedades mais prósperas e justas.

Apelos neste sentido emergiram claramente nos anos entre guerras, quando a democracia foi ameaçada pelo antecessor mais perigoso do populismo – o fascismo.

Nos Estados Unidos, por exemplo, Franklin D. Roosevelt reconheceu que necessitava de lidar não apenas com a falência económica da Grande Depressão, mas também com o medo de que a democracia se estivesse a desvanecer na  “poeira da história”, enquanto as ditaduras fascistas e comunistas emergiam como a onda do futuro. Lidar com ambos os problemas requereu não só soluções práticas para os problemas contemporâneos mas também capacidade para convencer os cidadãos de que a democracia continuava a ser o melhor sistema para criar um futuro melhor. Tal como Roosevelt proclamou no seu primeiro discurso de posse:

“Comparado com os perigos que os nossos antecessores ultrapassaram porque acreditaram e não tiveram medo, ainda temos muito para estar agradecidos… [Os nossos problemas não são insolúveis, existem] porque os governantes falharam… devido à sua teimosia e… incompetência… Esta Nação pede ação, e ação já… Eu assumo, sem hesitar, a liderança deste grande exército do nosso povo empenhado em, disciplinadamente, atacar os nossos problemas comuns. A única coisa de que devemos ter medo é do próprio medo.”

2. Uma dinâmica semelhante desenrolou-se numa outra história de sucesso do centro-esquerda nessa era – a Suécia. Reconhecendo o perigo da praga de governos instáveis minoritários que assolou o país no período entre guerras, o poder crescente do fascismo e os desafios da Grande Depressão, o partido social democrata (SAP) desenvolveu uma nova perspetiva da relação entre Estado e capitalismo, culminado na famosa defesa de um “Keynesianismo antes de Keynes”. Tal como Roosevelt, ofereceram aos eleitores soluções concretas para problemas contemporâneos, bem como o compromisso de construir um mundo melhor. Durante a campanha eleitoral de 1932, um jornal do partido declarava, por exemplo, que “a humanidade carrega o seu destino nas suas próprias mãos… Onde a burguesia apregoa lassidão e submissão ao… destino, nós apelamos ao desejo do povo por criatividade… conscientes de que podemos e seremos bem-sucedidos na construção de um sistema social onde os frutos do trabalho beneficiarão os que estiverem disponíveis para […] participar nesta tarefa comum” (ver aqui). O partido combinou este apelo económico com a promessa de transformar a Suécia num “Folkhemmet” ou “lar do povo” – um país onde “as barreiras que… separam cidadãos” seriam eliminadas e onde não existiriam “nem privilegiados nem negligenciados, governantes ou dependentes, saqueadores e saqueados” (ver aqui). O resultado foi que, ao contrário do que aconteceu em países como a Alemanha e a Itália, onde os fascistas apareciam politicamente ativos e ambiciosos, na Suécia foi o SAP a ficar conhecido como o partido com planos entusiasmantes para criar um mundo melhor.

Depois de1945, os partidos social-democratas, em geral, aceitaram as políticas defendidas por Roosevelt e pelo SAP. Ironicamente, o sucesso dessas políticas na estabilização da democracia capitalista conduziu a que muitos começassem a ver o trabalho da esquerda mais em termos tecnocráticos do que em termos transformadores. Esta tendência culminou, no final do século XX, com líderes como Blair, Clinton e Schroeder, no entendimento de que projetos transformadores eram coisa do passado, ou mesmo perigosos, e que o objetivo da esquerda deveria ser gerir a democracia capitalista melhor do que a direita. Os perigos deste entendimento, ou pelo menos as suas desvantagens, foram reconhecidas pelo próprio Blair que afirmaria, num discurso em 2002, que “por vezes, pode parecer que [a política se transformou] num exercício meramente tecnocrático… mais ou menos bem gerido, mas sem qualquer propósito moral primordial”.

Quando os tempos são bons, este tipo de política pode ser suficiente, mas quando não são, a crença generalizada de que os governos não querem ou não conseguem alterar o status quo conduz ao descontentamento com a democracia. É aqui, claro, que entra o populismo.

O populismo vende uma política do medo – do crime, do terrorismo, do desemprego, do declínio económico, da perda de valores nacionais e da tradição – e afirma que os outros partidos conduzem os países para o desastre. Os estudos de opinião mostram que os eleitores populistas estão extremamente pessimistas, acreditando que o passado era melhor que o presente, e extremamente ansiosos quanto ao futuro. Mas o pessimismo infetou as sociedades ocidentais mais amplamente. Um inquérito recente do Pew Research Center, por exemplo, revelou que, apesar da proporção crescente de cidadãos europeus que, nos seus países, vivem uma situação económica muito melhor do que uma década antes, tal não se traduz em mais otimismo acerca do futuro. Com efeito, em muitos países europeus o diferencial “experiência-expectativa” cresceu: na Holanda, na Suécia e na Alemanha, por exemplo, aproximadamente 80 por cento ou mais afirmam que a economia está a ir bem, mas menos de 40 por cento acreditam que a próxima geração viverá melhor do que a dos seus pais. Estas perspetivas refletem uma realidade problemática: particularmente em tempos de mudança e incerteza, a visão das pessoas é mais moldada pelas emoções do que pela racionalidade. Reconhecendo isso mesmo, Roosevelt, o SAP e os social-democratas compreendiam que, para o centro esquerda e a democracia serem bem-sucedidos, precisávamos não apenas de soluções práticas para problemas contemporâneos, mas também de uma visão otimista para contrapor à visão distópica oferecida pelos populistas.

Durante as décadas do pós-guerra, a social-democracia providenciou isto mesmo. Contra o comunismo e o liberalismo argumentou que as pessoas, trabalhando em conjunto, podiam usar o Estado democrático para transformar o mundo num lugar melhor. Os problemas do século XXI são diferentes na forma, mas não no género. Continuamos a precisar de combinar políticas pragmáticas que possam responder a desafios como a desigualdade económica, o crescimento lento e mudanças culturais e sociais desconcertantes, com a capacidade para convencer os cidadãos de que a democracia liberal oferece o caminho mais promissor para um futuro melhor. O avanço de políticos tão diferentes como Trump, Corbyn ou Macron torna claro quão desesperados estão os cidadãos por líderes que insistem que a política interessa – que a mudança é possível se a vontade existir. Se os partidos de centro-esquerda não conseguirem responder a este anseio, os eleitores virar-se-ão para outros partidos que o façam – com consequências potencialmente nefastas para o destino da democracia liberal.

[Publicado originalmente em Social Europe, 10 de outubro de 2018. Os cartoons que ilustram o texto podem ser vistos aqui.]

Como citar: Berman, Sheri (2019,” Política, pessimismo e populismo”, Socialismo Democrático. https://socialismodemocratico.ps.pt/index.php/2019/03/25/politica-pessimismo-e-populismo/

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