O populismo: o que é e como se combate

Sociólogo, membro da comissão política do Partido Socialista

1. O populismo tem sido caracterizado na ciência política por três características essenciais cumulativas. A primeira é uma posição antielitista materializada não só na denúncia sistemática de quaisquer elites, mas acima de tudo, do campo intelectual e das elites intelectuais.

A segunda característica essencial do populismo é negar a diversidade e o pluralismo. Esta é, na minha opinião, a característica mais importante e a mais perigosa das dinâmicas populistas. Ao apresentar ou procurando apresentar as sociedades, não como sociedades mas como povos e povos definidos de forma identitária absoluta, isto é, povos sem divergências, sem divisões, sem debates e sem forças organizadas para exprimir e conduzir esses debates, o populismo constrói uma crítica devastadora do campo político democrático. Nesta conceção absoluta e homogénea do povo, tudo aquilo que numa democracia encarna o pluralismo e exprime a diversidade é condenável, porque supostamente divide a nação. Assim, os partidos políticos, parlamentos, grupos de interesse, sindicatos, meios de comunicação social e, em geral, todas as forças que exprimem a diversidade e o pluralismo constitutivo das sociedades democráticas modernas seriam condenáveis porque seriam apenas fatores de desagregação, divisão ou cisão deste povo concebido como uma unidade absoluta e inteira.

Por fim, a terceira grande característica do populismo é a representação moral e emocional do povo. O povo não se caracterizaria por razões de ordem biológica, geográfica, sociológica, demográfica, etc. – o que distingue o povo português, do povo espanhol, do povo francês,  mas o povo caracterizar-se-ia por uma essência ontológica, um sentido de unidade projetado em termos morais e emocionais. Todos aqueles que estejam foram desse padrão emocional e moral da representação do povo, isto é, todos aqueles que não se reveem no populismo são ipso facto excluídos do povo, da nação, e tratados como outros, como inimigos, como bárbaros no sentido grego do termo, isto é, como estranhos à nossa condição.

É útil que concentremos a nossa atenção no populismo e nestas três características fundamentais, porque são elas que representam os maiores perigos às nossas democracias: a deriva anti intelectual, a deriva antipluralista e a deriva anti racional e antirracionalista. Estas três derivas são as ameaças mais fortes do populismo às nossas sociedades.

2. Em segundo lugar, para levarmos a sério a ameaça populista não devemos desvalorizar os problemas suscitados pelo discurso populista e designadamente os problemas suscitados na adesão popular ao populismo. É impossível, por exemplo, compreender o que se passa hoje no Brasil sem perceber que no ano passado se registaram no Brasil mais de 60.000 homicídios, 7.000 dos quais a cargo das próprias forças de segurança. É preciso, portanto, perceber que há um problema real de segurança pública e de perceção de insegurança.

Não devemos, por isso, e não podemos combater o populismo ignorando a realidade dos problemas ou a realidade das situações, uma vez que estes são fatores objetivos que em parte explicam a ascensão da ilusão que os populistas transportam. É decisivo que tenhamos sempre presente que as respostas populistas são simplistas, erradas e contraproducentes a problemas que, uns, são reais e, outros, imaginários.

Será, porventura, difícil compreender, por exemplo, que na Eslováquia haja tanta pulsão antimigratória, quando a Eslováquia não tem imigrantes, ou que haja uma tão grande pulsão islamofóbica quando a Eslováquia não tem muçulmanos. Mas mesmo quando lidamos com estes problemas que nos parecem imaginários é preciso perceber qual é a realidade destes problemas imaginários. Provavelmente o fator explicativo mais forte destas pulsões antipluralistas e antimigratórias é mesmo o desconhecimento e a ignorância intercultural, o desconhecimento e a ignorância inter-religiosa, o desconhecimento e a ignorância em relação aos fatores positivos e produtivos das migrações. Devemos, portanto, saber diferenciar sempre os problemas e as respostas, uma vez que só poderemos combater as respostas populistas aos problemas das pessoas se encontrarmos as nossas respostas para esses mesmos problemas.

Em terceiro lugar, para combatermos a ameaça populista nunca devemos falar como os populistas nem falar com a agenda dos populistas, mas devemos falar com os populistas e sobretudo devemos falar com as pessoas que aderem ao populismo. A esquerda democrática, onde incluo a ex-senadora Hillary Clinton, já se apercebeu o quanto podemos perder quando desqualificamos o eleitorado dos populistas, tratando-os como deploráveis, como marginais ou como ignorantes.

Esta ideia é muito importante nas suas duas componentes, isto é, tanto é fundamental falarmos com os populistas e com as pessoas que aderem ao populismo, como é igualmente importante não falar como eles, nem ter a sua agenda, o que significa não dar direitos de cidade aos estereótipos dos populistas usando-os nós próprios. É muito importante não nos esquecermos desta ideia, porque o conjunto das forças democráticas europeias está hoje corroído por dentro pelo populismo: estão corroídos os liberais, assumindo o populismo na prevalência da lógica austeritária; está o PPE, como toda a gente percebe ouvindo e lendo o que diz o primeiro-ministro húngaro Orbán; mas está também o Partido Socialista Europeu que tem hoje nos seus grupos, em países como a Bulgária, a Roménia e a Eslováquia, problemas sérios de corrosão da sua expressão política e dos seus filiados políticos por lógicas populistas. Este é um problema de todos e poderia continuar nas outras famílias políticas, algumas das quais estão hoje hegemonizadas pela posição populista e não apenas do lado da extrema-direita.

Por último, para combater o populismo precisamos de intervir em vários momentos. Num primeiro momento, precisamos de não ter medo de combatê-lo afirmando uma agenda própria e fazendo do antipopulismo uma bandeira política. Desse ponto de vista, acho que nós os socialistas devemos aprender muito com a experiência francesa e com a forma como Emmanuel Macron conduziu a sua campanha presidencial e tem conduzido aliás, a sua campanha europeia e, em particular, com a sua tentativa de criar os termos do debate desta campanha europeia em maio na lógica progressista versus nacionalista e antieuropeísta. Não devemos ter medo de fazer desta a nossa bandeira pensando que ela não rende. Não só rende, como é absolutamente necessária, até por uma questão de respeito pelos nossos próprios valores políticos.

Num segundo momento devemos combater o populismo em cada uma das suas três características fundamentais. A defesa da imprescindibilidade, para uma sociedade democrática organizada, do campo académico, do campo intelectual e dos meios de comunicação social, é absolutamente decisiva para quem quiser combater a primeira característica. Assim como a defesa da democracia parlamentar, dos consensos democráticos em particular na Europa, face ao antielitismo dos populistas. Grande parte do problema de que o Brasil se ressente hoje deriva da sistemática desconstrução por parte dos grupos ditos identitários da posição das forças democráticas centrais no Brasil.

É preciso contrariar aquela velha tentação que é histórica de nós combatermos mais o irmão que nos está mais próximo do que o inimigo longínquo. Evidentemente, só é possível combater as derivas, os entendimentos moralistas e as representações emocionais da política, se nós combatermos o sonho da suposta regeneração da política pelo sistema de justiça; se nós combatermos a ignorância e as campanhas de manipulação e de desinformação, se nós dissermos que sim, que somos e temos muito orgulho em ser filhos da racionalidade europeia que desde o século XVII e com muito esforço temos construído na Europa.

N.º 1 (nova série), abril de 2019

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