Os riscos dos novos media

Investigadora FCT, Instituto de Ciências Sociais (ICS), Universidade de Lisboa

Numa altura em que políticos como Bolsonaro ou Trump e partidos dos extremos do espectro político convencem um número considerável de eleitores, faz sentido reflectir sobre o papel dos media em democracia. Os novos media e, em particular, os social media estão associados ao sucesso destes atores políticos, porque excluem os mediadores tradicionais e permitem chegar de forma directa e rápida a um grande número de eleitores.

O entusiasmo inicial em relação ao potencial democratizante da Internet tem vindo a dar lugar a algum pessimismo, que está reflectido nos títulos de livros que foram publicados recentemente sobre o tema, como é o caso dos seguintes: Propaganda Computacional: Partidos Políticos e Manipulação Política nos Social Media; Democracia Dividida na Era dos Social Media; Antissocial Media: Como o Facebook nos Desconecta e Enfraquece a Democracia; Nova Idade das Trevas: Tecnologia e o Fim do Futuro; Propaganda Extremista nos Social Media: Uma Ameaça à Segurança Nacional; Os Social Media como Arma. Retrocedendo no tempo, e olhando para os títulos publicados sobre o tema ao longo da última década, vemos que não foi sempre assim. No início do desenvolvimento da Internet encontramos sobretudo esperança, promessas de democratização e de renovação política. Tornaram-se comuns conceitos como democracia digital e cidadão digital e os efeitos democratizantes da Internet foram amplamente enfatizados, sobretudo durante os acontecimentos relacionados com a Primavera Árabe, quando se falou mesmo de uma quarta vaga de democratização impulsionada pelos novos media. Foi sobretudo nas democracias emergentes que mais esperanças foram depositadas na Internet como agente de democratização. Mas, inicialmente, os efeitos positivos foram apontados um pouco por toda a parte, incluindo em democracias consolidadas, entre eles: fácil acesso a mais informação, participação de mais cidadãos nos processos de decisão política, formação de comunidades de interesse para além das barreiras geográficas.

Não obstante o potencial destas novas tecnologias para aprofundar a democracia, o tempo mostrou que os seus efeitos não são apenas positivos. Os mais recentes desenvolvimentos tecnológicos evidenciaram formas de controlo e de manipulação da informação que põem em causa muitos dos direitos fundamentais adquiridos em democracia. Das promessas de democratização, participação, deliberação, de concretização da esfera pública de Habermas, passou-se a discutir a realidade da propaganda e da manipulação, mas também a do extremismo e da violência. O que começou por ser o elogio da conectividade transformou-se em algo que merece mais atenção, pois precisamente por facilitar a conectividade permite distribuir propaganda e manipular percepções e opiniões de forma mais eficiente e nunca antes vista (por exemplo, a recolha de dados pessoais para utilizar em campanhas cujo objectivo é influenciar decisões políticas e outras); fomentar ódio e fanatismo; minar a confiança nas instituições; ou mesmo suscitar dúvidas sobre descobertas científicas comprovadas. As campanhas de desinformação e a disseminação de notícias falsas (fake news) nunca foram tão fáceis como agora, com os novos media.

Para além disso, a própria tecnologia acarreta alguns riscos. Algoritmos seleccionam a informação que é apresentada com base no perfil de cada utilizador (a localização, o histórico de pesquisas na Internet, etc.) e controlam por onde a informação circula. Esta arrumação da informação provoca uma menor exposição a ideias diferentes e produz estados de isolamento, as denominadas filter bubbles. Para além disso, este novo tipo de curadoria da informação potencia a amplificação, o reforço de opiniões e polarização e, em alguns casos, o extremismo, porque através da análise das suas preferências, os utilizadores são agrupados em grupos de semelhantes, as denominadas “câmaras de eco”, que originam processos de afirmação identitária em que a exposição à diferença é drasticamente reduzida e logo a empatia e a tolerância estão menos presentes. O que está directamente relacionado com a polarização e com a radicalização das opiniões. Estudos já demonstraram que este tipo de reforço das opiniões influencia as atitudes políticas e mesmo as atitudes relativas à ciência, e que as pessoas que estão expostas a informação que confirma as suas opiniões raramente questionam a veracidade dessa informação. E este comportamento não ocorre apenas em grupos específicos: todos nós temos preferências e opiniões que influenciam a forma como interpretamos a informação.

Nunca houve tantos conteúdos disponíveis (tudo pode ser publicado sem qualquer filtro), mas um número crescente de pessoas tem acesso a informação menos diversa e a informação de pouca qualidade, incluindo falsa, porque é muito fácil agora lançar campanhas de desinformação e publicar rumores e notícias falsas. E, ao mesmo tempo que assistimos à perda de influência dos mediadores tradicionais, surgem novas figuras, como os trolls e os bots. Enquanto algumas campanhas são levadas a cabo directamente por indivíduos, os Internet trolls (utilizadores que deliberadamente atacam, ofendem, ou causam disrupções no meio online através de todo o tipo de conteúdo, incluindo comentários, vídeos ou fotos), muitas são feitas por um tipo de software conhecido por bots. Os bots podem recolher e disseminar informação, controlar contas falsas nas redes sociais, comunicar directamente com utilizadores reais, enviar spam, manipular as tendências de pesquisa, etc. Recorrendo a estratégias que são conhecidas como propaganda computacional, alguns governos usam bots para promover as suas acções, para silenciar ou difamar críticos e opositores políticos, para influenciar o voto em eleições. Casos têm sido registados um pouco por toda a parte, desde os Estados Unidos da América, Europa, ou Ásia.

A polarização da opinião pública decorrente de processos de selecção e enquadramento da informação pelos media não é um efeito novo, já tinha sido previamente assinalado em relação a outros tipos de media (em Post-Broadcast Democracy, Prior demonstrou como a televisão pode ter um efeito semelhante). As definições do debate político e do conhecimento são enquadradas pelos media e os efeitos dos jornais, da rádio e da televisão na política e na sociedade em geral têm sido documentados. Postman (1985), por exemplo, chamou a atenção para os efeitos nocivos da televisão na política, e referiu-se a esse impacto com a persuasiva expressão de “amusing ourselves to death”, ou seja, alertou para a transformação da política em entretenimento. A situação actual distingue-se sobretudo pelo ritmo mais acelerado do impacto da tecnologia na política e na sociedade, pela abertura da produção (e controlo) de conteúdos a mais atores, mas também pelo potencial de interactividade.

O que está em causa é, assim, o uso que é feito dos media e da tecnologia. Os media e a tecnologia são igualmente um produto do contexto em que operam e este contexto pode e, em alguns casos, deve ser regulado. Deve sobretudo garantir-se a diversidade das fontes e dos conteúdos que circulam. Na política, tal como na natureza, o equilíbrio sustentado acontece através da preservação da diversidade. E a tolerância e o respeito pela diferença podem ser incentivados através da exposição a informação plural. Esta é uma forma possível de incentivar o compromisso, evitando a exclusão e a violência. Igualmente importante é o incentivo a iniciativas independentes de verificação da informação. A lógica de serviço público que já é assegurada por alguns órgãos de informação deveria ser repensada e alargada para incluir a função de verificação sistemática da informação que circula, que seria implementada pelos órgãos já existentes ou por novas entidades pensadas especificamente para o efeito.

Referências Postman, Neil (1985), Amusing Ourselves to Death: Public Discourse in the Age of Show Business, Londres, Penguin Books. Prior, Markus (2007), Post-Broadcast Democracy: How Media Choice Increases Inequality in Political Involvement and Polarizes Elections, Cambridge, Cambridge University Press.

Nota A autora escreve de acordo com a antiga ortografia.

N.º 1 (nova série), abril de 2019

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