“(…) Por nossa causa, milhares de espécies já não darão glória a Deus com a sua existência, nem poderão comunicar-nos a sua própria mensagem. Não temos direito de o fazer.”
Papa Francisco, Carta Encíclica Laudato Si’ (2015, parágrafo 33).
“As pessoas estão a sofrer e a morrer. Os nossos ecossistemas estão a morrer. Por mais de 30 anos, a ciência tem sido muito clara. Como vocês se atrevem a continuar ignorando isto?”
Greta Thunberg, Discurso nas Nações Unidas (2019, 23 Setembro)

O que têm em comum as palavras de um homem com mais de oitenta anos, líder espiritual de milhões de homens e de mulheres, e as palavras de uma quase menina que ainda não completou duas décadas de vida? Atrevo-me a dizer que em comum, têm esta profunda consciência de que a Natureza sofre e que, com o seu sofrimento, se hipoteca a cada dia a existência da própria Humanidade.
De facto, a nossa vida depende profundamente da nossa relação com a Natureza. Se não, repare-se: mais de setenta e cinco por cento das culturas alimentares mundiais dependem da polinização, o que significa que um ser tão pequeno como uma abelha, um zangão, uma borboleta, é um aliado insubstituível da nossa alimentação, logo, da nossa própria sobrevivência. Mas, o que acontece se esses pequenos seres começarem a desaparecer? Certamente já ouvimos falar em problemas de floração, tais como a queda precoce ou a má formação das flores em árvores de fruto, ou até mesmo a quebra na quantidade da floração, com consequente quebra na produção e qualidade de frutas. Sendo certo que a floração débil, que cai antes de tempo, ou que é até inexistente, pode ter diversas causas (desde a pobreza dos solos, a escassez ou má qualidade das águas de rega, as inesperadas e cada vez mais frequentes variações de temperatura), não podemos ignorar que entre as causas estão também, e cada vez mais, as deficientes polinizações. Pois bem, hoje, na Europa, e de acordo com os dados mais recentes da União Internacional para a Conservação da Natureza, um em cada dez pequenos polinizadores endémicos europeus está sob séria ameaça de extinção, o que não pode senão preocupar-nos, e muito. O desaparecimento de uma espécie, por modesta que nos pareça - um caracol, um gafanhoto, uma borboleta, uma erva singela - implica sempre um impacto negativo sobre o seu ecossistema, e, no limite, pode implicar não só o colapso do mesmo, como levar a outros impactos nocivos sobre outros ecossistemas. É o princípio do Efeito Borboleta, mas em que o bater das asas pode significar a morte. Na base da progressiva destruição de ecossistemas estão diversas causas ambientais e climáticas, e é claro que nem todas terão uma ligação (pelo menos evidente) com a ação humana. Porém, temos de admitir o omnipresente e avassalador poder da nossa ação, seja pelo seu impacto direto (pensemos na expansão das zonas urbanas e industriais; na desflorestação; na indústria de mineração em terra e mar profundo; nas grandes explorações de pecuária intensiva ou de monoculturas agrícolas), seja pelo impacto indireto que pode ter sobre os ciclos e o equilíbrio de certos fenómenos climáticos. O crescente número de tempestades, mais intensas
e mais espalhadas ao longo do ano; as secas prolongadas; as ondas de calor cada vez mais frequentes; a propagação de espécies invasoras, são exemplos de fenómenos extremos para os quais a ação humana também tem contribuído. Essa ação, tantas vezes predadora, sobranceira, agressiva, ignorando a voz da Natureza, pode custar-nos muito caro. A necessidade de políticas e medidas urgentes, que travem a galopante degradação ambiental, que nos orientem para um paradigma que rompa com a lógica da economia linear, levou a Comissão Europeia a lançar em maio do ano passado, a Estratégia da Biodiversidade para 2030. Trata-se de uma estratégia que lança as orientações para as grandes decisões políticas que devem colocar a Europa no caminho certo da recuperação da sua Biodiversidade. Desenhada para estar em conformidade com a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável e com os objetivos do Acordo de Paris sobre as Alterações Climáticas, a Estratégia da Biodiversidade é um dos pilares do Pacto Ecológico Europeu e alinha-se com uma das prioridades da própria Agenda Estratégica da UE, adotada pelos líderes dos Estados-membros, no Conselho Europeu de junho de 2019: “construir uma Europa com impacto neutro no clima, verde, justa e social”. A janela de oportunidade é estreita e encontra-se aberta por tempo incerto, pelo que é urgente agir antes que a mesma se feche, de modo
drástico e irreversível.